Saturday, July 21, 2007

Palavra de Especialista

COMO LIDAR COM UM CÂNCER

David G. Borges

biólogo, graduando em filosofia

Não, não irei falar sobre oncologia hoje. Pelo menos não em sentido estrito. Falarei de um tipo “diferente” de câncer.

É opinião da maioria dos biólogos e demais cientistas sérios que o criacionismo não deva ser discutido. Alguns evitam tocar no assunto a todo custo, como se a mera menção da palavra fosse sujar seus currículos. Outros desprezam o tema com desdém por não o julgarem digno de nota. Há aqueles que permanecem em um profundo silêncio por ainda possuírem conflitos internos entre sua formação acadêmica e sua constituição cultural. Há ainda os que seguem certos cientistas de renome considerados “modelos de conduta”, como Stephen J. Gould (já falecido) e Richard Dawkins, que evitam discutir o tópico por acharem que isso dá visibilidade aos criacionistas. É até cômico que o primeiro seja praticamente santificado em alguns círculos de biólogos e o segundo sempre receba duras críticas por algumas de suas posições; no entanto, a postura de ambos em relação ao criacionismo é exatamente a mesma. Mas este não será o assunto deste ensaio.

Minha intenção aqui é chamar a atenção para o crescimento do criacionismo. Daí a comparação com um câncer – que nada mais é do que um punhado de células que crescem e se multiplicam de forma desenfreada.

Para analisar o crescimento do fenômeno é preciso analisar como ele cresce. Ao contrário do que muitos cientistas pensam, o criacionismo não é meramente a prevalência de uma visão mitológica da realidade. É mais complexo do que isso. O fenômeno está intimamente ligado à cultura religiosa de nossa sociedade. Mas para discutir temos de entender primeiro o que é o criacionismo.

Antes de qualquer coisa, criacionismo é diferente de deísmo*. O deísmo é a crença em alguma divindade ou ente transcendente qualquer, O que de forma alguma se opõe à evolução ou a qualquer outra teoria científica. O criacionismo é a crença de que as espécies existentes hoje na Terra não surgiram por processos naturais, e sim foram “criadas” por alguma força externa (daí a origem do termo). A maioria dos criacionistas adota o deus bíblico em suas mais variadas denominações como ente criador. Existem basicamente duas “vertentes” principais de criacionismo, apesar das inúmeras variações:

· Criacionistas defensores da literalidade bíblica: Assumem a narrativa do Gênesis como um relato literal da história do homem. Este é o ponto que gera o “conflito” com a biologia – o gênesis afirma que o homem foi feito a partir do barro e a mulher a partir de uma costela do primeiro homem. Adicionalmente, todos os animais e plantas teriam sido criados instantaneamente por um ato divino de vontade, exatamente da forma como são hoje. Biologicamente, todas estas proposições são falsas. Homens não surgem espontaneamente a partir do barro, nem mulheres de costelas. Os animais e plantas não possuem hoje a mesma estrutura que possuíam em épocas remotas, nem tampouco as espécies são imutáveis – o registro fóssil, a fisiologia, a anatomia comparada e a genética atestam isso. Seres vivos também não surgem instantaneamente de forma milagrosa, e ainda no século XIX Pasteur refutou este tipo de idéia com um experimento bastante simples. Dentre algumas das possíveis variações dessa “vertente”, podemos encontrar criacionistas que advogam que a idade da Terra é de 6.000 anos ou ainda aqueles que defendem ter ocorrido um dilúvio universal. Há os que afirmam que este dilúvio foi o responsável pela extinção dos dinossauros. Outros vão mais longe, e chegam a afirmar que o meteorito que causou a grande extinção do final do cretáceo era a “queda” de Lúcifer. Este é, de longe, o grupo mais “variado” de criacionistas – alguns defendem todas as idéias citadas (e muitas outras) ao mesmo tempo.

· Criacionistas defensores do “desenho inteligente”, “intelligent design”, “DI” ou “ID”: Não assumem o gênesis bíblico como um relato literal da história do homem, mas afirmam que um ente externo, o qual chamam de “desenhista”, “arquiteto” ou “projetista”, criou todas as espécies viventes, tendo-as planejado anteriormente. Assim, todas as estruturas biológicas existentes em todos os seres vivos foram planejadas, e obedecem a um fim. Isso contraria a biologia no sentido em que a evolução é um processo incerto, sem planejamento e não-teleológico (ou seja, não-orientado para uma “finalidade” – qualquer que seja ela). Esta proposição é facilmente refutada pela ecologia, pela etologia e pela anatomia (incluindo a anatomia comparada). O “desenho inteligente” se tornou famoso com William Paley em 1802, e Charles Darwin passa a maior parte de “A Origem Das Espécies” refutando esta idéia – ou seja, esta proposição já está “enterrada” há mais de 160 anos.

Uma das principais argumentações dos criacionistas é afirmar que a teoria da evolução é uma “passagem” para o ateísmo. Esta é a espinha dorsal do pensamento criacionista, e por isso precisa ser abordada em detalhes – mesmo que para isso seja necessário fugir um pouco do tema do ensaio.

Não há nenhuma relação entre uma coisa e outra. O mecanismo evolutivo (seja aquele descrito por Darwin ou qualquer outro) não “anula” de forma alguma a possível existência de uma ou mais divindades. As pessoas continuam livres para crer nos deuses que quiserem, desde que não misturem as bolas – é óbvio que uma divindade que faz pessoas surgirem de barro é uma idéia sem cabimento frente aos conhecimentos que possuímos hoje, mas quando se assume o texto bíblico como metáfora, a teodicéia está completa e a divindade “salva”. Mas é válido lembrar que a “contradição” NÃO ESTÁ nas ciências, e sim em se considerar um texto com milênios de idade, que já foi “editado” inúmeras vezes (igrejas incluem, retiram e modificam trechos a seu bel-prazer), com partes faltantes (alguns manuscritos se perderam com o tempo), que já foi traduzido inúmeras vezes (de uma tradução para a outra se perde muito em conteúdo) e de origem difusa (pois foi escrito em diversas línguas diferentes e muitos de seus autores permanecem desconhecidos, além de ter amalgamado a cultura de diversos povos diferentes – o próprio mito do dilúvio é de origem mesopotâmia) como verdade absoluta e imutável. Embora isso seja, NO MÍNIMO, falta de senso crítico, a cultura popular desestimula a reflexão a esse respeito – analisar criticamente a bíblia é tido como equivalente a questionar a própria divindade. E questionar a divindade é “errado”. Embora esta argumentação – de que reinterpretar as escrituras é algo “perigoso” por poder levar ao ateísmo – ser um imenso preconceito com os ateus e também configure uma falha absurda de raciocínio, passarei por cima deste assunto para não fugir mais ao tema do ensaio.

Resumindo: o problema dos criacionistas não é com a evolução em si, mas com o naturalismo presente nas ciências. Por algum motivo, os incomoda o fato das ciências não falarem sobre a divindade deles e de não confirmarem a sua existência ou sua suposta grandiosidade. Os incomoda não encontrar “confirmação” para as suas crenças nas ciências. O interessante é que nunca vi um hindu, shintoísta ou yorubá incomodado com isso. Isso é exclusividade de alguns cristãos, para quem crer não é o suficiente para crer.

Voltando ao assunto inicial, ENQUANTO A SOCIEDADE NÃO PERMITIR QUE CERTOS DOGMAS SEJAM QUESTIONADOS, O CRIACIONISMO CONTINUARÁ CRESCENDO. Por mais ilógica e sem fundamento que seja a postura criacionista, só é possível perceber isso com questionamentos e raciocínio crítico. É necessário questionar se o texto bíblico é literal ou uma metáfora. É necessário questionar a autoridade do clero, questionar se eles sabem do que estão falando ou não. É necessário questionar se TUDO o que está escrito na bíblia é verdadeiro; questionar qual o grau de confiabilidade e precisão do que está naquelas linhas. Em outras palavras: é necessário questionar se a bíblia foi “mandada via fax diretamente do céu” ou se foi escrita por homens – que, como todos os demais homens, podem errar. E isto não vale somente para a bíblia; o mesmo se aplica a qualquer “livro sagrado” – seja o corão ou o “livro dos espíritos” de Allan Kardec.

A nossa sociedade é extremamente conservadora no que se refere à religião, e não permite que estes questionamentos sejam feitos. Fazê-los é “errado”. É feio. Deus não gosta. E o seu vizinho também não.

É a partir desse conservadorismo que o criacionismo cresce. Faz-se DE TUDO para não se questionar qualquer coisa que seja remotamente relacionada à religião. E sempre que alguém é questionado, invoca a liberdade de crença como salvaguarda. Liberdade de crença não é a mesma coisa que obrigatoriedade de dogmatismo ou obrigatoriedade de se furtar ao debate. As religiões, como qualquer outra atividade humana, podem e DEVEM ser questionadas.

Exemplos de como esse conservadorismo tacanho facilita o crescimento do criacionismo são inúmeros e podem ser encontrados com facilidade. Recentemente narrei em um ensaio anterior neste mesmo blog uma experiência que tive com um professor que aparentava sequer saber o que era criacionismo, mas defendia a idéia. Há pouco tempo a revista superinteressante burramente publicou uma matéria afirmando que Darwin havia “matado” deus. Embora a revista já publique matérias ruins há anos e o público que entende alguma coisa sobre ciências não a leve muito a sério, este foi um erro gravíssimo – não só pelo mal-exercício da profissão por parte do autor e do editor, que obviamente não estudaram o suficiente sobre o assunto, como pela negligência da editora em não manter um consultor científico em uma revista que pretende abordar temas das mais diversas áreas e é conhecida por cometer erros grosseiros. O que ocorreu em seguida foi um “efeito bola de neve”: a matéria gerou uma reação no “observatório de imprensa”, com a publicação de um texto de cunho criacionista que utilizou o que estava escrito na Super como trampolim para criticar a teoria da evolução. Quem leu o texto e está inteirado sobre a “polêmica” criacionista certamente se perguntou: como pode o observatório de imprensa (que pretende ser sério) publicar aquele tipo de artigo? Quase um mês depois outro ensaio, desta vez criticando não só a revista como o autor do primeiro texto, foi publicado. Mas a esta altura o estrago já estava feito.

Outro exemplo recente: a Universidade Federal do Rio Grande do Sul ministrou um curso de extensão intitulado “A Prova Científica da Existência de Deus”. Não só é impossível obter “prova científica da existência de deus” (qualquer curioso que entenda um mínimo de filosofia da ciência sabe disso), como o próprio nome dado ao curso já demonstra sensacionalismo barato. O pior é que a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade Federal de Sergipe também se envolveram nisso. E o leigo que vê esse tipo de coisa escrita na internet ou em qualquer outro lugar passa a achar que existe alguma prova CIENTÍFICA da existência da divindade judaico-cristã...

A infiltração de criacionistas em universidades não é novidade. O Sr. Adauto Lourenço, freqüentemente citado como um “cientista criacionista” apesar de seu currículo obscuro, já começou a dar suas “palestras” em faculdades pelo Brasil afora – no início ele se restringia apenas aos templos. É válido lembrar que este senhor é um criacionista “terra jovem” – daqueles que defendem que o planeta tem apenas 6.000 anos e que o homem já conviveu com dinossauros, tendo estes animais perecido no dilúvio de Noé.

A Sociedade Criacionista Brasileira tem em seu site instruções para a montagem de um “centro escolar criacionista”, ou seja, uma escola de doutrinação religiosa. Essa mesma organização já apoiou a criação de um curso de PÓS-GRADUAÇÃO intitulado “estudos em criacionismo”, ministrado pela UNASP (uma faculdade adventista de São Paulo). No Rio de Janeiro o governo estadual já tentou inserir o criacionismo nos currículos escolares.

Em virtude do enorme crescimento do criacionismo e da “talibanização” religiosa no país (não apenas evangélica), será que realmente vale a pena ignorar o assunto? Arrisco especular que, neste ritmo, em breve não existirão mais liberdades individuais neste país – viveremos em uma teocracia. A liberdade de cátedra provavelmente será a primeira a ser atacada.

A pergunta-chave é: quando um câncer começa a crescer no corpo de alguém, a melhor forma de lidar com ele é ignorá-lo ou tratá-lo?

Eu prefiro a radioterapia.


* Não confundir teísmo com deísmo.

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8 Comments:

Blogger Rodrigo plei said...

.

Belo texto David. Só uma correção. O Livro dos Espíritos não é de Chico Xavier, e sim uma compilação de mensagens espirituais feitas por Allan Kardec.

Cheers,

.

10:55 AM  
Blogger David said...

Tem razão, falha minha. Não sei de onde tirei aquilo...

Como o erro é bastante "grosseiro", vou ver se o Renan pode dar uma corrigida no texto.

10:58 AM  
Anonymous Renan said...

Já foi corrigido!

A propósito, ótimo texto.

Concordo com a radioterapia hahaha, mas se for aplicada com moderação e equilíbrio, como defendi em meu texto neste mesmo blog.

Abraços

11:48 AM  
Blogger Allysson Allan said...

David,

Bela síntese.

A radioterapia tem que estar em conjunto com a Ontoterapia, e a Filoterapia.

Abração!

12:47 PM  
Blogger Agnon Fabiano said...

Existem basicamente duas “vertentes” principais de criacionismo, apesar das inúmeras variações:

Criacionistas defensores da literalidade bíblica: Assumem a narrativa do Gênesis como um relato literal da história do homem.

Criacionistas defensores do “desenho inteligente”, “intelligent design”, “DI” ou “ID”: Não assumem o gênesis bíblico como um relato literal da história do homem, mas afirmam que um ente externo, o qual chamam de “desenhista”, “arquiteto” ou “projetista”, criou todas as espécies viventes, tendo-as planejado anteriormente.


Há um engano aí. Criacionistas defensores do “desenho inteligente” e Criacionistas defensores da literalidade bíblica estão no mesmo grupo. Existe apenas uma subdivisão daqueles que crêem que os dias de Gênesis são de 24h e aqueles que acreditam que não. O rumo disso é a crença ou não de uma terra jovem.

Outra questão que não deve nos enganar é a respeito da palavra "literalidade". Na bíblia temos alguns tipo de leitura, como, por exemplo, a simbólica (Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á... Jo 10:9), a histórica (Depois partiram os filhos de Israel, e acamparam-se nas campinas de Moabe, além do Jordão na altura de Jericó. Nm 22:1), a poética (Salmos), a direcionada (Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; Dt 23:17), a geral (Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mc 12:31), etc.

Mas é válido lembrar que a “contradição” NÃO ESTÁ nas ciências, e sim em se considerar um texto com milênios de idade, que já foi “editado” inúmeras vezes (igrejas incluem, retiram e modificam trechos a seu bel-prazer), com partes faltantes (alguns manuscritos se perderam com o tempo), que já foi traduzido inúmeras vezes (de uma tradução para a outra se perde muito em conteúdo) e de origem difusa (pois foi escrito em diversas línguas diferentes e muitos de seus autores permanecem desconhecidos, além de ter amalgamado a cultura de diversos povos diferentes – o próprio mito do dilúvio é de origem mesopotâmia) como verdade absoluta e imutável.

Apesar de haver modificações em algumas traduções, elas não são algo gritante. Muitas vezes são a troca de palavras por sinônimos que sejam palavras mais "fortes" para a defesa de uma certa doutrina, como por exemplo, trocar a palavras "antemão" por "predestinação". Outras vezes é uma paráfrase, já que a tradução é feita a partir dos originais que são línguas sintéticas. Outras são alterações estilísticas. Mas os escritos originais estão conservados e especialistas de todo o mundo escrevem livros e mais livros a respeito da gramática e semântica dos textos originais.

Os textos não são alterados à bel-prazer, uma leitura do desenvolvimento da canonicidade dos textos bíblicos, mostraria isso. Por exemplo, os massoréticos conservavam os originais contando todas as letras, palavras e parágrafos do texto, fazendo marcações que mostravam qual a letra e a palavras que ficavam na metade do texto. Darei um exemplo de Isaías. A cópia mais antiga que temos do livro de Isaías, antes das descobertas do Mar Morto, era datada de 900 d.C. A cópia descoberta no Mar Morto data de 100 a.C. Essa era a oportunidade de se verificar as mudanças feitas pelos copistas do texto durante 1.000 anos. Mas a comparação revelou variações apenas na ortografia, algumas mudanças estilísticas e raramente uma palavra.

A Bíblia não foi modificada como se pensa. Aliás, uma das grandes provas disso é justamente o que os críticos chamam de "erros" e "inconsistências" da bíblia. Uma inconsistência reconciliada torna-se um argumento positivo. Um impostor geralmente se previne a fim de não dar uma aparência da inconsistência. A existência de dificuldades comprova a ausência daquele cuidado que geralmente acompanha a consciência da fraude.

É por isso que os ateus que realmente estudaram a bíblia, como alguns arqueólogos, lingüistas, historiadores e outros cientistas, não questionaram a veracidade do texto, pois acharam inquestionável, mas se existe ou não perigo em desprezá-lo. Diante de tamanha coerência, essa foi a saída: deixas a questão de verdadeiro ou falso fora do debate.

Outro pensamento errôneo é que a bíblia tem origem difusa; foi escrito em diversas línguas. O Antigo Testamento foi escrito em hebraico e o Novo Testamento foi escrito em grego.

Resumindo: o problema dos criacionistas não é com a evolução em si, mas com o naturalismo presente nas ciências.

A sua proposição pode ser facilmente revertida se dissermos que o problema da ciência é o seu naturalismo restrito. Por algum motivo os incomoda de falarmos de Deus.

É necessário questionar se o texto bíblico é literal ou uma metáfora. É necessário questionar a autoridade do clero, questionar se eles sabem do que estão falando ou não. É necessário questionar se TUDO o que está escrito na bíblia é verdadeiro; questionar qual o grau de confiabilidade e precisão do que está naquelas linhas.

Sim, é necessário e estamos abertos a isso. Uma tradição religiosa que depende de proteger suas doutrinas fundamentais da análise crítica, ou que se espalha pelo uso da violência, não é uma concorrente no “mercado” universal das idéias. Da mesma forma, os evolucionistas não deveriam fugir da falseabilidade. Os cientistas têm a tendência de ser inconstantes quanto à flexibilidade que a ciência deve ter quando confrontada com os críticos. Por um lado dizem que a glória da ciência é que jamais é dogmática. Porém, qualquer pessoa que se aproveitar do convite implícito de duvidar, aprenderá rapidamente que existem limites bem severos, a pessoa será repudiada como se fosse inimiga da razão. Dawkins respondeu irritado que ninguém a não ser um criacionista, faria uma pergunta dessas (relativa a teoria da informação). Não se pode chegar a um ponto mais “não-científico” do que isso, pois na verdadeira ciência uma busca de evidências é sempre recomendada. Uma verdadeira ciência não emprega barreiras para que se façam perguntas relevantes. A verdadeira ciência lembrará que somente alguns aspectos da realidade poderão ser entendidos mediante a observação e experimentação. E assim, nunca almejará um absurdo como a “teoria de tudo”.

2:17 PM  
Blogger David said...

Caro Agnon,

"Há um engano aí. Criacionistas defensores do “desenho inteligente” e Criacionistas defensores da literalidade bíblica

estão no mesmo grupo. Existe apenas uma subdivisão daqueles que crêem que os dias de Gênesis são de 24h e aqueles que

acreditam que não. O rumo disso é a crença ou não de uma terra jovem."


Não há engano algum. Vários criacionistas defensores do "desenho inteligente" rejeitam o literalismo bíblico. Eles se baseiam na bíblia a fim de afirmar a existência de uma "criação", mas rejeitam o literalismo. Michael Behe é um exemplo. Outro ótimo exemplo é o movimento raeliano, que defende a idéia de que fomos criados por extraterrestres e não deuses. Você incorreu em uma simplificação excessiva.

"Outra questão que não deve nos enganar é a respeito da palavra "literalidade". Na bíblia temos alguns tipo de leitura, como, por exemplo, a simbólica (Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á... Jo 10:9), a histórica (Depois partiram os filhos de Israel, e acamparam-se nas campinas de Moabe, além do Jordão na altura de Jericó. Nm 22:1), a poética (Salmos), a direcionada (Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; Dt 23:17), a geral (Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mc 12:31), etc."

E eu critico justamente a leitura LITERAL da bíblia, sem a qual o criacionismo sequer existiria. Se o livro do gênesis fosse visto de forma simbólica e/ou "poética", não haveria criacionismo - não há nenhum conflito entre a biologia e o gênesis caso o conteúdo do mesmo seja visto como figura de linguagem. Quanto à "leitura histórica" que você citou, devo lembrar que a bíblia não é confiável como fonte histórica - várias passagens dela (como a "libertação" dos judeus do Egito, por exemplo) não possuem nenhum fundamento histórico. Ver a bíblia a partir dessa perspectiva requer muito cuidado e critério, a fim de se evitar uma análise tendenciosa. Em muitos casos, burlar esse cuidado metodológico e encará-la como um livro DE HISTÓRIA é o mesmo que interpretá-la literalmente - o que leva ao erro.

"Apesar de haver modificações em algumas traduções, elas não são algo gritante. Muitas vezes são a troca de palavras por sinônimos que sejam palavras mais "fortes" para a defesa de uma certa doutrina, como por exemplo, trocar a palavras "antemão" por "predestinação". Outras vezes é uma paráfrase, já que a tradução é feita a partir dos originais que são línguas sintéticas. Outras são alterações estilísticas. Mas os escritos originais estão conservados e especialistas de todo o mundo escrevem livros e mais livros a respeito da gramática e semântica dos textos originais."

Estudo línguas antigas e falo com conhecimento de causa: são gritantes. Em geral, as MELHORES bíblias que temos disponíveis em português foram traduzidas a partir do latim (há versões em circulação de bíblias que foram traduzidas a partir de outros idiomas). Porém, as bíblias latinas foram traduzidas a partir do grego koiné (um dialeto também conhecido como "grego bíblico"). Muitas palavras gregas têm o seu sentido alterado ou o perdem completamente quando traduzidas para o latim, e o mesmo acontece das palavras latinas para a língua portuguesa. Um exemplo clássico se encontra em João 1:1: "No princípio era o verbo". O original diz "logos" no lugar de "verbo". A palavra "logos" possui, paraa língua grega, um sentido absurdamente mais amplo, o que influencia na compreensão do leitor.

"Os textos não são alterados à bel-prazer, uma leitura do desenvolvimento da canonicidade dos textos bíblicos, mostraria isso."

A bíblia católica possui, em média, 7 livros a mais do que as bíblias protestantes e neo-pentecostais (dependendo de qual denominação estivermos falando esse número encontra uma ligeira variação). São eles: Baruch, Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Eclesiástico e Sabedoria (também chamados de "livros deuterocanônicos").Ela ainda possui trechos "a mais" nos livros de Ester e Daniel (ambos protocanônicos). Há ainda os tão famosos "evangelhos apócrifos", livros excluídos da bíblia romana - muito citados por teóricos de conspiração e escritores de ficção.

"A Bíblia não foi modificada como se pensa. Aliás, uma das grandes provas disso é justamente o que os críticos chamam de "erros" e "inconsistências" da bíblia. Uma inconsistência reconciliada torna-se um argumento positivo. Um impostor geralmente se previne a fim de não dar uma aparência da inconsistência. A existência de dificuldades comprova a ausência daquele cuidado que geralmente acompanha a consciência da fraude."

Você não acha um tanto quanto forçado tentar convencer alguém de que inconsistências são, na verdade, provas da CONSISTÊNCIA do texto?

"É por isso que os ateus que realmente estudaram a bíblia, como alguns arqueólogos, lingüistas, historiadores e outros cientistas, não questionaram a veracidade do texto, pois acharam inquestionável, mas se existe ou não perigo em desprezá-lo. Diante de tamanha coerência, essa foi a saída: deixas a questão de verdadeiro ou falso fora do debate."

Você deve estar mal-informado: há inúmeros ateus que questionam a veracidade do texto. Aliás, isso é EXTREMAMENTE comum. Recentemente um historiador até processou o vaticano por abusar da boa-fé do povo, pois em suas pesquisas havia concluído que a história de Jesus Cristo era completamente falsa.

"Outro pensamento errôneo é que a bíblia tem origem difusa; foi escrito em diversas línguas. O Antigo Testamento foi escrito em hebraico e o Novo Testamento foi escrito em grego."

A bíblia foi escrita em ARAMAICO, grego e hebraico. Isso sem contar que o hebraico usado na bíblia não é homogêneo; há trechos escritos em hebraico clássico, em dialetos mais "rudimentares" baseados no hebraico e em hebraico com influência de outras línguas da época.

Encontramos exemplos de como o texto bíblico é uma amálgama de tradições dos mais diferentes povos em toda a sua extensão. A história de Noé, por exemplo, é uma cópia rudimentar da epopéia de Gilgamesh. A própria história de Jesus Cristo mistura elementos de diversas culturas. Perseu era um ser divino nascido a partir de uma gravidez miraculosa. Sháh Bahram era um salvador que viria para julgar a humanidade. Innana foi uma divindade morta, pendurada e que ressuscitou após três dias. Hércules era um semideus que ascendeu a uma condição divina após ter realizado suas obras. Asclépio curava doentes de forma milagrosa. E Krishna supostamente sobreviveu a um rei que mandou matar recém-nascidos para se livrar dele, que era uma ameaça. O texto bíblico é claramente uma "colagem", um mosaico de mitos de diferentes povos circunvizinhos à região onde o judaísmo e o cristianismo surgiram.

"A sua proposição pode ser facilmente revertida se dissermos que o problema da ciência é o seu naturalismo restrito. Por algum motivo os incomoda de falarmos de Deus."

Além de ser um argumento falacioso, a ciência lida apenas com o que pode ser observado e/ou experimentado. "Deus" não é observável, e embora uma parcela significativa da população mundial diga que é "experimentável", tal "experimentação" não pode ser feita dentro dos parâmetros do método científico, não resiste aos critérios de falseabilidade e, por isso, não passa pelo problema da demarcação.

Aliás, "incluir" o deus judaico-cristão na ciência seria o mesmo que descaracterizá-lo. Algo que pode ser observado, experimentado, medido e modelado é claramente um fenômeno natural - e não há nada de "divino" nisso.

A ciência se refere apenas a fenômenos NATURAIS, não àquilo que está além. Se é que existe algo "além".

"Sim, é necessário e estamos abertos a isso. Uma tradição religiosa que depende de proteger suas doutrinas fundamentais da análise crítica, ou que se espalha pelo uso da violência, não é uma concorrente no “mercado” universal das idéias. Da mesma forma, os evolucionistas não deveriam fugir da falseabilidade. Os cientistas têm a tendência de ser inconstantes quanto à flexibilidade que a ciência deve ter quando confrontada com os críticos. Por um lado dizem que a glória da ciência é que jamais é dogmática. Porém, qualquer pessoa que se aproveitar do convite implícito de duvidar, aprenderá rapidamente que existem limites bem severos, a pessoa será repudiada como se fosse inimiga da razão. Dawkins respondeu irritado que ninguém a não ser um criacionista, faria uma pergunta dessas (relativa a teoria da informação). Não se pode chegar a um ponto mais “não-científico” do que isso, pois na verdadeira ciência uma busca de evidências é sempre recomendada. Uma verdadeira ciência não emprega barreiras para que se façam perguntas relevantes. A verdadeira ciência lembrará que somente alguns aspectos da realidade poderão ser entendidos mediante a observação e experimentação. E assim, nunca almejará um absurdo como a “teoria de tudo”."

Toda tradição religiosa depende, em maior ou menor grau, de proteger suas doutrinas da análise crítica. Esses são os DOGMAS de cada religião em particular. Para os católicos, por exemplo, a virgindade da mãe de Jesus é inquestionável - apesar de qualquer pessoa ter ciência de que virgens não podem ficar grávidas a não ser por fertilização artificial, o que não existia na época.

Quanto à sua crítica quanto à possibilidade de qualquer um poder "duvidar" das descobertas da ciência, devo lhe dizer: qualquer um pode. DESDE QUE demonstre possuir conhecimento do assunto. O que se vê geralmente é uma horda de leigos querendo opinar em assuntos sobre os quais não possuem o conhecimento necessário - como a esmagadora maioria dos criacionistas (para não dizer todos) faz com a teoria da evolução. Existem muitos cientistas SÉRIOS que questionam e buscam falsear teorias extremamente bem fundamentadas, mas eles o fazem com CONHECIMENTO do assunto e DENTRO do método científico. Em geral a "massa" das pessoas que tenta fazer isso não possui o conhecimento técnico necessário, muito menos o cuidado metodológico. São pessoas que querem questionar por algum tipo de "birra" com os livros - e lhes falta humildade para reconhecer que não possuem a competência necessária para a tarefa. Esse é um assunto amplo que merece ser discutido com mais profundidade; se você e os demais leitores se interessarem posso abordá-lo em outro ensaio.

Quanto á "teoria de tudo", acho que você deve ter se confundido. Esse é o APELIDO de uma teoria ainda não acabada da FÍSICA. Se foi alguma referência à evolução, você se enganou.

Abraços.

12:14 AM  
Blogger David said...

Caro Agnon,

"Há um engano aí. Criacionistas defensores do “desenho inteligente” e Criacionistas defensores da literalidade bíblica estão no mesmo grupo. Existe apenas uma subdivisão daqueles que crêem que os dias de Gênesis são de 24h e aqueles que acreditam que não. O rumo disso é a crença ou não de uma terra jovem."

Não há engano algum. Vários criacionistas defensores do "desenho inteligente" rejeitam o literalismo bíblico. Eles se baseiam na bíblia a fim de afirmar a existência de uma "criação", mas rejeitam o literalismo. Michael Behe é um exemplo. Outro ótimo exemplo é o movimento raeliano, que defende a idéia de que fomos criados por extraterrestres e não deuses. Você incorreu em uma simplificação excessiva.

"Outra questão que não deve nos enganar é a respeito da palavra "literalidade". Na bíblia temos alguns tipo de leitura, como, por exemplo, a simbólica (Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á... Jo 10:9), a histórica (Depois partiram os filhos de Israel, e acamparam-se nas campinas de Moabe, além do Jordão na altura de Jericó. Nm 22:1), a poética (Salmos), a direcionada (Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; Dt 23:17), a geral (Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mc 12:31), etc."

E eu critico justamente a leitura LITERAL da bíblia, sem a qual o criacionismo sequer existiria. Se o livro do gênesis fosse visto de forma simbólica e/ou "poética", não haveria criacionismo - não há nenhum conflito entre a biologia e o gênesis caso o conteúdo do mesmo seja visto como figura de linguagem. Quanto à "leitura histórica" que você citou, devo lembrar que a bíblia não é confiável como fonte histórica - várias passagens dela (como a "libertação" dos judeus do Egito, por exemplo) não possuem nenhum fundamento histórico. Ver a bíblia a partir dessa perspectiva requer muito cuidado e critério, a fim de se evitar uma análise tendenciosa. Em muitos casos, burlar esse cuidado metodológico e encará-la como um livro DE HISTÓRIA é o mesmo que interpretá-la literalmente - o que leva ao erro.

"Apesar de haver modificações em algumas traduções, elas não são algo gritante. Muitas vezes são a troca de palavras por sinônimos que sejam palavras mais "fortes" para a defesa de uma certa doutrina, como por exemplo, trocar a palavras "antemão" por "predestinação". Outras vezes é uma paráfrase, já que a tradução é feita a partir dos originais que são línguas sintéticas. Outras são alterações estilísticas. Mas os escritos originais estão conservados e especialistas de todo o mundo escrevem livros e mais livros a respeito da gramática e semântica dos textos originais."

Estudo línguas antigas e falo com conhecimento de causa: são gritantes. Em geral, as MELHORES bíblias que temos disponíveis em português foram traduzidas a partir do latim (há versões em circulação de bíblias que foram traduzidas a partir de outros idiomas). Porém, as bíblias latinas foram traduzidas a partir do grego koiné (um dialeto também conhecido como "grego bíblico"). Muitas palavras gregas têm o seu sentido alterado ou o perdem completamente quando traduzidas para o latim, e o mesmo acontece das palavras latinas para a língua portuguesa. Um exemplo clássico se encontra em João 1:1: "No princípio era o verbo". O original diz "logos" no lugar de "verbo". A palavra "logos" possui, paraa língua grega, um sentido absurdamente mais amplo, o que influencia na compreensão do leitor.

"Os textos não são alterados à bel-prazer, uma leitura do desenvolvimento da canonicidade dos textos bíblicos, mostraria isso."

A bíblia católica possui, em média, 7 livros a mais do que as bíblias protestantes e neo-pentecostais (dependendo de qual denominação estivermos falando esse número encontra uma ligeira variação). São eles: Baruch, Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Eclesiástico e Sabedoria (também chamados de "livros deuterocanônicos").Ela ainda possui trechos "a mais" nos livros de Ester e Daniel (ambos protocanônicos). Há ainda os tão famosos "evangelhos apócrifos", livros excluídos da bíblia romana - muito citados por teóricos de conspiração e escritores de ficção.

"A Bíblia não foi modificada como se pensa. Aliás, uma das grandes provas disso é justamente o que os críticos chamam de "erros" e "inconsistências" da bíblia. Uma inconsistência reconciliada torna-se um argumento positivo. Um impostor geralmente se previne a fim de não dar uma aparência da inconsistência. A existência de dificuldades comprova a ausência daquele cuidado que geralmente acompanha a consciência da fraude."

Você não acha um tanto quanto forçado tentar convencer alguém de que inconsistências são, na verdade, provas da CONSISTÊNCIA do texto?

"É por isso que os ateus que realmente estudaram a bíblia, como alguns arqueólogos, lingüistas, historiadores e outros cientistas, não questionaram a veracidade do texto, pois acharam inquestionável, mas se existe ou não perigo em desprezá-lo. Diante de tamanha coerência, essa foi a saída: deixas a questão de verdadeiro ou falso fora do debate."

Você deve estar mal-informado: há inúmeros ateus que questionam a veracidade do texto. Aliás, isso é EXTREMAMENTE comum. Recentemente um historiador até processou o vaticano por abusar da boa-fé do povo, pois em suas pesquisas havia concluído que a história de Jesus Cristo era completamente falsa.

"Outro pensamento errôneo é que a bíblia tem origem difusa; foi escrito em diversas línguas. O Antigo Testamento foi escrito em hebraico e o Novo Testamento foi escrito em grego."

A bíblia foi escrita em ARAMAICO, grego e hebraico. Isso sem contar que o hebraico usado na bíblia não é homogêneo; há trechos escritos em hebraico clássico, em dialetos mais "rudimentares" baseados no hebraico e em hebraico com influência de outras línguas da época.

Encontramos exemplos de como o texto bíblico é uma amálgama de tradições dos mais diferentes povos em toda a sua extensão. A história de Noé, por exemplo, é uma cópia rudimentar da epopéia de Gilgamesh. A própria história de Jesus Cristo mistura elementos de diversas culturas. Perseu era um ser divino nascido a partir de uma gravidez miraculosa. Sháh Bahram era um salvador que viria para julgar a humanidade. Innana foi uma divindade morta, pendurada e que ressuscitou após três dias. Hércules era um semideus que ascendeu a uma condição divina após ter realizado suas obras. Asclépio curava doentes de forma milagrosa. E Krishna supostamente sobreviveu a um rei que mandou matar recém-nascidos para se livrar dele, que era uma ameaça. O texto bíblico é claramente uma "colagem", um mosaico de mitos de diferentes povos circunvizinhos à região onde o judaísmo e o cristianismo surgiram.

"A sua proposição pode ser facilmente revertida se dissermos que o problema da ciência é o seu naturalismo restrito. Por algum motivo os incomoda de falarmos de Deus."

Além de ser um argumento falacioso, a ciência lida apenas com o que pode ser observado e/ou experimentado. "Deus" não é observável, e embora uma parcela significativa da população mundial diga que é "experimentável", tal "experimentação" não pode ser feita dentro dos parâmetros do método científico, não resiste aos critérios de falseabilidade e, por isso, não passa pelo problema da demarcação.

Aliás, "incluir" o deus judaico-cristão na ciência seria o mesmo que descaracterizá-lo. Algo que pode ser observado, experimentado, medido e modelado é claramente um fenômeno natural - e não há nada de "divino" nisso.

A ciência se refere apenas a fenômenos NATURAIS, não àquilo que está além. Se é que existe algo "além".

"Sim, é necessário e estamos abertos a isso. Uma tradição religiosa que depende de proteger suas doutrinas fundamentais da análise crítica, ou que se espalha pelo uso da violência, não é uma concorrente no “mercado” universal das idéias. Da mesma forma, os evolucionistas não deveriam fugir da falseabilidade. Os cientistas têm a tendência de ser inconstantes quanto à flexibilidade que a ciência deve ter quando confrontada com os críticos. Por um lado dizem que a glória da ciência é que jamais é dogmática. Porém, qualquer pessoa que se aproveitar do convite implícito de duvidar, aprenderá rapidamente que existem limites bem severos, a pessoa será repudiada como se fosse inimiga da razão. Dawkins respondeu irritado que ninguém a não ser um criacionista, faria uma pergunta dessas (relativa a teoria da informação). Não se pode chegar a um ponto mais “não-científico” do que isso, pois na verdadeira ciência uma busca de evidências é sempre recomendada. Uma verdadeira ciência não emprega barreiras para que se façam perguntas relevantes. A verdadeira ciência lembrará que somente alguns aspectos da realidade poderão ser entendidos mediante a observação e experimentação. E assim, nunca almejará um absurdo como a “teoria de tudo”."

Toda tradição religiosa depende, em maior ou menor grau, de proteger suas doutrinas da análise crítica. Esses são os DOGMAS de cada religião em particular. Para os católicos, por exemplo, a virgindade da mãe de Jesus é inquestionável - apesar de qualquer pessoa ter ciência de que virgens não podem ficar grávidas a não ser por fertilização artificial, o que não existia na época.

Quanto à sua crítica quanto à possibilidade de qualquer um poder "duvidar" das descobertas da ciência, devo lhe dizer: qualquer um pode. DESDE QUE demonstre possuir conhecimento do assunto. O que se vê geralmente é uma horda de leigos querendo opinar em assuntos sobre os quais não possuem o conhecimento necessário - como a esmagadora maioria dos criacionistas (para não dizer todos) faz com a teoria da evolução. Existem muitos cientistas SÉRIOS que questionam e buscam falsear teorias extremamente bem fundamentadas, mas eles o fazem com CONHECIMENTO do assunto e DENTRO do método científico. Em geral a "massa" das pessoas que tenta fazer isso não possui o conhecimento técnico necessário, muito menos o cuidado metodológico. São pessoas que querem questionar por algum tipo de "birra" com os livros - e lhes falta humildade para reconhecer que não possuem a competência necessária para a tarefa. Esse é um assunto amplo que merece ser discutido com mais profundidade; se você e os demais leitores se interessarem posso abordá-lo em outro ensaio.

Quanto á "teoria de tudo", acho que você deve ter se confundido. Esse é o APELIDO de uma teoria ainda não acabada da FÍSICA. Se foi alguma referência à evolução, você se enganou.

Abraços.

12:16 AM  
Anonymous Atilassauro said...

Muito bom o texto. Além do alerta e de esclarecimentos possui algo fundamental em debater tais assuntos: a imparcialidade.

5:45 PM  

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