Monday, July 30, 2007

Palavra de Especialista

A MONTANHA DE CONCHAS DE LEONARDO DA VINCI


POR ÁTILA OLIVEIRA


Leonardo Da Vinci foi um daqueles raríssimos indivíduos que podem ser chamados de gênio sem parecer um exagero. Infelizmente, a exposição que aborda a vida e obra deste grande gênio na Oca, em São Paulo, chega ao fim no próximo dia 29. É cara, mas vale a visita. Competente pintor, desenhista, escultor, poeta, músico (compunha, cantava e tocava instrumentos), filósofo, anatomista, naturalista, engenheiro, matemático, físico e arquiteto; realizou obras tão grandiosas quanto belas e teve idéias que produziram anotações que antecipavam um futuro que muitos outros renascentistas consideravam impossível.

Minha formação e preferências pessoais não me permitem avaliar a obra artística de Leonardo; sou mais um apreciador das anotações e trabalhos científicos dele. Além de estudos super detalhados sobre anatomia (com o principal intuito de tornar suas obras de arte o mais realista possível), baseado principalmente na dissecação de cadáveres (algo ainda mal visto no séc XVI), e na observação minuciosa de animais e plantas; Leonardo Da Vinci antecipou equipamentos como o para-quedas, a bicicleta, a máquina à vapor e o helicóptero. E se espantava com o fato de alguns médicos da sua época pretenderem curar doenças sem conhecer a fundo a anatomia humana.

Sim, o título deste meu texto é uma clara referência ao último livro do paleontólogo de Harvard, Stephen Jay Gould (1941-2002). Como já se tornara marca registrada em sua obra, ele analisa com muito bom humor nesse volume, em uma coletânea de ensaios, vários fatos interessantes envolvendo a evolução das espécies. Quem já leu esse livro sabe que a maioria dos ensaios discorre especificamente sobre como a contingência histórica e a fé pessoal de alguns pesquisadores levaram-nos muitas vezes a conclusões equivocadas, ao longo da história da ciência. Dentre os fatos relatados, ganha especial destaque o estudo de Leonardo Da Vinci sobre conchas marinhas fósseis.

E é justamente esta contingência histórica que pretendo abordar aqui hoje. O texto a seguir, extraído de documentos da imprensa da época e publicado no Brasil numa biografia de Da Vinci elaborada pela editora Martin Claret, retrata o episódio chave desses estudos. Percebe-se no mesmo que Leonardo era de fato um indivíduo muito a frente de seu tempo. E não raras vezes era por isso mesmo incompreendido. Não era apenas alguém criativo, perceptivo e brilhante, como também alguém com uma "sede" insaciável de compreender o mundo que o rodeava, não se contentando com afirmações do tipo "porque é assim e ponto final". Ele queria compreender COMO e POR QUE as coisas são como são. Ele não se contentava com respostas prontas ou ausência de respostas. Ele queria VER. Queria ENTENDER.

Leonardo Da Vinci fazia uso do empirismo científico para conseguir suas respostas. A maior parte do grande público só conhece o Da Vinci artista. Infelizmente, muitos desconhecem o fato de que a sua forma de analisar o mundo foi de grande contribuição para a evolução da ciência. Por meio dos seus estudos, ele percebeu que o mundo nem sempre foi como é hoje, o que o levou a indagar-se se as formas de vida também não estariam se alterando desde o inicio das mesmas na Terra. Pois é, Leonardo Da Vinci já havia percebido a evolução biológica, muito embora não tivesse dado a ela este nome na época e nem tenha se empenhado (ou não tivesse tido tempo, tendo em vista suas múltiplas tarefas) em estudá-la mais a fundo.

É bem verdade que tal metodologia não era necessariamente uma novidade na época, mas também é verdade que os denominados líderes da ciência do Renascimento aceitavam-na com ressalvas. Isso ocorria devido ao dogmatismo então presente, que fica evidente no narrativa que se segue.

Moluscos bivalves fósseis (gênero Spondilus), do período cretáceo (100 milhões de anos), encontrados na Itália.

Em Milão, na corte de Ludovico, o Mouro, realiza-se o segundo Duelo do Saber; cujos participantes são doutores, deões e professores da Universidade de Pavia.
Por solicitação do próprio duque, Leonardo Da Vinci participa do torneio depois de concluir: "Se eu não ceder, talvez fique zangado; falarei sobre o primeiro assunto que me vier á cabeça."
Sobe à cátedra e fala:
- Devo prevenir-vos de antemão que isto me acometeu inesperadamente... foi uma surpresa... Bem, falarei sobre conchas marinhas.
E começou:
- Estou persuadido de que o estudo dos animais e plantas petrificados, que até aqui foi desprezado pelos homens da ciência, constituirá o começo de uma nova ciência da terra, do seu passado e do seu futuro.
- A informação que acabais de nos fornecer - observou o reitor da Universidade de Pavia, Gabriele Pirovano - é deveras curiosa. Mas permitir-me-ei uma observação: não é mais simples explicar a origem dessas pequenas conchas por uma acidental, divertida e inocente brincadeira da natureza; sobre a qual pretendeis edificar uma nova ciência? Não é muito mais simples explicar a sua origem como tem sido feito até agora pelo Dilúvio Universal?
- Sim, sim, o Dilúvio! - observou Leonardo - Sei que atribuem isso ao Dilúvio. Só que essa explicação não se mantém de pé... Julgai por vós mesmos: o nível da água durante o Dilúvio, de acordo com aquele que o mediu, foi de dez côvados acima das montanhas mais altas. Conseqüentemente, as conchas levadas pelas ondas tempestuosas, deveriam ter caído no cimo, inevitavelmente no cimo, mas não nos lados, nem ao pé das montanhas, e muito menos dentro de cavernas subterrâneas. Além disso, teriam caído em desordem, ao capricho das ondas, mas não, como sempre, no mesmo nível; nem em camadas sobrepostas, como são encontradas. Basta que observeis - e isso é realmente curioso - que os animais que vivem em colônias, tais como os moluscos, as cibas e as ostras, permanecem unidos, como deveriam, ao passo que os de hábitos solitários, ficam à parte, tal como podemos ver ainda hoje nas praias. Tenho freqüentemente observado a disposição das conchas petrificadas na Toscana, Lombardia e Piemonte. Mas se disserdes que não são levadas para lá pela maré, mas que subiram por si próprias, pouco a pouco, com a água, acompanhando a elevação dela, ainda assim essa vossa objeção é facilmente refutável, pois o marisco é um animal tão lento como o caramujo, ou até mais. Não nada, apenas se arrasta sobre a areia e as pedras pelo movimento das suas válvulas, e a maior distância que pode percorrer durante um dia inteiro é de três ou quatro varas. Como, pois, se tiverdes a bondade de explicar-me, Messer Gabriele, podeis conceber que, durante os quarenta dias que o dilúvio durou, segundo o testemunho de Moisés, pode ter-se arrastado esse molusco duzentos e cinqüenta milhas, que é a distância a separar Monferrato das praias do Adriático? Somente os que, desprezando a experiência e a observação, julgam a natureza pelos livros, de acordo com os conceitos dos mercadores de palavras, bem como os que jamais tiveram a curiosidade de olhar com os seus próprios olhos as coisas de que falam, ousarão fazer tal asserção!
Depois de um silêncio constrangedor, finalmente o astrólogo da corte, Messer Ambrogio da Rosate (antes da aceitação cabal das leis de Johannes Kepler e Isaac Newton, astronomia e astrologia eram estudas indefinidamente como uma única disciplina), propôs, citando Plínio, uma outra solução: as petrificações que teriam somente a aparência de animais marinhos, tinham sido deformadas, na profundeza da terra, pela ação mágica das estrelas.
- Mas então, Messer Ambrogio - retorquiu Leonardo - como explicais o fato de que a influência das mesmas estrelas, no mesmo lugar tenha criados animais não apenas de diferentes espécies, como também, de diferentes idades? Eu próprio descobri que, mediante secções transversais feitas em conchas, bem como em chifres de bois e carneiros e troncos de árvores decepados, é possível determinar com exatidão não somente os seus anos de vida, mas até mesmo os meses. Como explicaríeis o fato de se encontrarem algumas delas inteiras, outras quebradas, outras ainda, cheias de areia, lodo, pinças de caranguejos, ossos e dentes de peixes, e de grandes cascalhos, semelhantes aos que se encontram nas praias, formados de pequenas pedras arredondadas pelas ondas? E as delicadas marcas de folhas nos penhascos das mais altas montanhas? E as algas marinhas presas às conchas, ambas petrificadas, congeladas num único bloco? De onde vem tudo isso? Da influência das estrelas? Mas então, se raciocinarmos desse modo, suponho que não encontrareis em toda a natureza um único fenômeno que não possa ser explicado pela influência mágica das estrelas e, nesse caso, todas as ciências são inúteis, com exceção da astrologia...
O velho doutor em escolástica pediu a palavra e, quando lha concederam, observou que o assunto estava sendo tratado de maneira imprópria, pois apenas uma de duas coisas era possível: ou o problema dos animais das escavações pertencia ao conhecimento inferior, "mecânico", alheio á metafísica, caso em que nada havia a dizer-se do mesmo, já que não havia combinado discutir ali assuntos não relacionados com a filosofia; ou então o problema dizia respeito ao conhecimento verdadeiro e superior, a dialética, e nesse caso, deveria ser discutido de acordo com as leis da dialética, elevando os conceitos á pura contemplação mental.
- Sei de tudo isso - observou Leonardo Da Vinci - Também eu pensei muito sobre esse assunto. Só que tudo isso não é como afirmais... Penso que não há alto conhecimento nem conhecimento inferior, mas apenas um único conhecimento, decorrente da experimentação...
- Da experimentação? Ah, então é essa a vossa opinião? Bem, nesse caso, se me permitis, gostaria de perguntar-vos o que seria da metafísica de Aristóteles, Platão, Plotino... de todos os antigos filósofos que falaram sobre Deus, o espírito, as coisas essenciais... Será que tudo isso...
- Sim, nada disso é ciência - retorquiu, calmamente, Leonardo - Reconheço a grandeza dos antigos, mas não neste caso. Na ciência, tomaram o caminho errado. Queriam sondar o que é inacessível ao conhecimento, enquanto desdenhavam o que era acessível. Meteram-se a si próprio e aos outros, durante séculos, num beco sem saída. Porque os homens, quando tratam de assuntos que não podem ser provados, não conseguem nunca chegar a um acordo. Onde não há soluções sensatas, o lugar delas e tomado pela gritaria. Mas aquele que sabe não tem necessidade de gritar. A palavra da verdade é uma só, e quando é pronunciada, devem cessar os gritos dos que disputam. Se porém, os gritos continuam, é porque ainda não há a verdade.
Silenciado, percebeu seu isolamento em meio de toda aquela gente que se considerava servidora da ciência.

Átila Oliveira é biólogo, ambientalista e recentemente descobriu-se também um apreciador da arte.



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Saturday, July 21, 2007

Palavra de Especialista

COMO LIDAR COM UM CÂNCER

David G. Borges

biólogo, graduando em filosofia

Não, não irei falar sobre oncologia hoje. Pelo menos não em sentido estrito. Falarei de um tipo “diferente” de câncer.

É opinião da maioria dos biólogos e demais cientistas sérios que o criacionismo não deva ser discutido. Alguns evitam tocar no assunto a todo custo, como se a mera menção da palavra fosse sujar seus currículos. Outros desprezam o tema com desdém por não o julgarem digno de nota. Há aqueles que permanecem em um profundo silêncio por ainda possuírem conflitos internos entre sua formação acadêmica e sua constituição cultural. Há ainda os que seguem certos cientistas de renome considerados “modelos de conduta”, como Stephen J. Gould (já falecido) e Richard Dawkins, que evitam discutir o tópico por acharem que isso dá visibilidade aos criacionistas. É até cômico que o primeiro seja praticamente santificado em alguns círculos de biólogos e o segundo sempre receba duras críticas por algumas de suas posições; no entanto, a postura de ambos em relação ao criacionismo é exatamente a mesma. Mas este não será o assunto deste ensaio.

Minha intenção aqui é chamar a atenção para o crescimento do criacionismo. Daí a comparação com um câncer – que nada mais é do que um punhado de células que crescem e se multiplicam de forma desenfreada.

Para analisar o crescimento do fenômeno é preciso analisar como ele cresce. Ao contrário do que muitos cientistas pensam, o criacionismo não é meramente a prevalência de uma visão mitológica da realidade. É mais complexo do que isso. O fenômeno está intimamente ligado à cultura religiosa de nossa sociedade. Mas para discutir temos de entender primeiro o que é o criacionismo.

Antes de qualquer coisa, criacionismo é diferente de deísmo*. O deísmo é a crença em alguma divindade ou ente transcendente qualquer, O que de forma alguma se opõe à evolução ou a qualquer outra teoria científica. O criacionismo é a crença de que as espécies existentes hoje na Terra não surgiram por processos naturais, e sim foram “criadas” por alguma força externa (daí a origem do termo). A maioria dos criacionistas adota o deus bíblico em suas mais variadas denominações como ente criador. Existem basicamente duas “vertentes” principais de criacionismo, apesar das inúmeras variações:

· Criacionistas defensores da literalidade bíblica: Assumem a narrativa do Gênesis como um relato literal da história do homem. Este é o ponto que gera o “conflito” com a biologia – o gênesis afirma que o homem foi feito a partir do barro e a mulher a partir de uma costela do primeiro homem. Adicionalmente, todos os animais e plantas teriam sido criados instantaneamente por um ato divino de vontade, exatamente da forma como são hoje. Biologicamente, todas estas proposições são falsas. Homens não surgem espontaneamente a partir do barro, nem mulheres de costelas. Os animais e plantas não possuem hoje a mesma estrutura que possuíam em épocas remotas, nem tampouco as espécies são imutáveis – o registro fóssil, a fisiologia, a anatomia comparada e a genética atestam isso. Seres vivos também não surgem instantaneamente de forma milagrosa, e ainda no século XIX Pasteur refutou este tipo de idéia com um experimento bastante simples. Dentre algumas das possíveis variações dessa “vertente”, podemos encontrar criacionistas que advogam que a idade da Terra é de 6.000 anos ou ainda aqueles que defendem ter ocorrido um dilúvio universal. Há os que afirmam que este dilúvio foi o responsável pela extinção dos dinossauros. Outros vão mais longe, e chegam a afirmar que o meteorito que causou a grande extinção do final do cretáceo era a “queda” de Lúcifer. Este é, de longe, o grupo mais “variado” de criacionistas – alguns defendem todas as idéias citadas (e muitas outras) ao mesmo tempo.

· Criacionistas defensores do “desenho inteligente”, “intelligent design”, “DI” ou “ID”: Não assumem o gênesis bíblico como um relato literal da história do homem, mas afirmam que um ente externo, o qual chamam de “desenhista”, “arquiteto” ou “projetista”, criou todas as espécies viventes, tendo-as planejado anteriormente. Assim, todas as estruturas biológicas existentes em todos os seres vivos foram planejadas, e obedecem a um fim. Isso contraria a biologia no sentido em que a evolução é um processo incerto, sem planejamento e não-teleológico (ou seja, não-orientado para uma “finalidade” – qualquer que seja ela). Esta proposição é facilmente refutada pela ecologia, pela etologia e pela anatomia (incluindo a anatomia comparada). O “desenho inteligente” se tornou famoso com William Paley em 1802, e Charles Darwin passa a maior parte de “A Origem Das Espécies” refutando esta idéia – ou seja, esta proposição já está “enterrada” há mais de 160 anos.

Uma das principais argumentações dos criacionistas é afirmar que a teoria da evolução é uma “passagem” para o ateísmo. Esta é a espinha dorsal do pensamento criacionista, e por isso precisa ser abordada em detalhes – mesmo que para isso seja necessário fugir um pouco do tema do ensaio.

Não há nenhuma relação entre uma coisa e outra. O mecanismo evolutivo (seja aquele descrito por Darwin ou qualquer outro) não “anula” de forma alguma a possível existência de uma ou mais divindades. As pessoas continuam livres para crer nos deuses que quiserem, desde que não misturem as bolas – é óbvio que uma divindade que faz pessoas surgirem de barro é uma idéia sem cabimento frente aos conhecimentos que possuímos hoje, mas quando se assume o texto bíblico como metáfora, a teodicéia está completa e a divindade “salva”. Mas é válido lembrar que a “contradição” NÃO ESTÁ nas ciências, e sim em se considerar um texto com milênios de idade, que já foi “editado” inúmeras vezes (igrejas incluem, retiram e modificam trechos a seu bel-prazer), com partes faltantes (alguns manuscritos se perderam com o tempo), que já foi traduzido inúmeras vezes (de uma tradução para a outra se perde muito em conteúdo) e de origem difusa (pois foi escrito em diversas línguas diferentes e muitos de seus autores permanecem desconhecidos, além de ter amalgamado a cultura de diversos povos diferentes – o próprio mito do dilúvio é de origem mesopotâmia) como verdade absoluta e imutável. Embora isso seja, NO MÍNIMO, falta de senso crítico, a cultura popular desestimula a reflexão a esse respeito – analisar criticamente a bíblia é tido como equivalente a questionar a própria divindade. E questionar a divindade é “errado”. Embora esta argumentação – de que reinterpretar as escrituras é algo “perigoso” por poder levar ao ateísmo – ser um imenso preconceito com os ateus e também configure uma falha absurda de raciocínio, passarei por cima deste assunto para não fugir mais ao tema do ensaio.

Resumindo: o problema dos criacionistas não é com a evolução em si, mas com o naturalismo presente nas ciências. Por algum motivo, os incomoda o fato das ciências não falarem sobre a divindade deles e de não confirmarem a sua existência ou sua suposta grandiosidade. Os incomoda não encontrar “confirmação” para as suas crenças nas ciências. O interessante é que nunca vi um hindu, shintoísta ou yorubá incomodado com isso. Isso é exclusividade de alguns cristãos, para quem crer não é o suficiente para crer.

Voltando ao assunto inicial, ENQUANTO A SOCIEDADE NÃO PERMITIR QUE CERTOS DOGMAS SEJAM QUESTIONADOS, O CRIACIONISMO CONTINUARÁ CRESCENDO. Por mais ilógica e sem fundamento que seja a postura criacionista, só é possível perceber isso com questionamentos e raciocínio crítico. É necessário questionar se o texto bíblico é literal ou uma metáfora. É necessário questionar a autoridade do clero, questionar se eles sabem do que estão falando ou não. É necessário questionar se TUDO o que está escrito na bíblia é verdadeiro; questionar qual o grau de confiabilidade e precisão do que está naquelas linhas. Em outras palavras: é necessário questionar se a bíblia foi “mandada via fax diretamente do céu” ou se foi escrita por homens – que, como todos os demais homens, podem errar. E isto não vale somente para a bíblia; o mesmo se aplica a qualquer “livro sagrado” – seja o corão ou o “livro dos espíritos” de Allan Kardec.

A nossa sociedade é extremamente conservadora no que se refere à religião, e não permite que estes questionamentos sejam feitos. Fazê-los é “errado”. É feio. Deus não gosta. E o seu vizinho também não.

É a partir desse conservadorismo que o criacionismo cresce. Faz-se DE TUDO para não se questionar qualquer coisa que seja remotamente relacionada à religião. E sempre que alguém é questionado, invoca a liberdade de crença como salvaguarda. Liberdade de crença não é a mesma coisa que obrigatoriedade de dogmatismo ou obrigatoriedade de se furtar ao debate. As religiões, como qualquer outra atividade humana, podem e DEVEM ser questionadas.

Exemplos de como esse conservadorismo tacanho facilita o crescimento do criacionismo são inúmeros e podem ser encontrados com facilidade. Recentemente narrei em um ensaio anterior neste mesmo blog uma experiência que tive com um professor que aparentava sequer saber o que era criacionismo, mas defendia a idéia. Há pouco tempo a revista superinteressante burramente publicou uma matéria afirmando que Darwin havia “matado” deus. Embora a revista já publique matérias ruins há anos e o público que entende alguma coisa sobre ciências não a leve muito a sério, este foi um erro gravíssimo – não só pelo mal-exercício da profissão por parte do autor e do editor, que obviamente não estudaram o suficiente sobre o assunto, como pela negligência da editora em não manter um consultor científico em uma revista que pretende abordar temas das mais diversas áreas e é conhecida por cometer erros grosseiros. O que ocorreu em seguida foi um “efeito bola de neve”: a matéria gerou uma reação no “observatório de imprensa”, com a publicação de um texto de cunho criacionista que utilizou o que estava escrito na Super como trampolim para criticar a teoria da evolução. Quem leu o texto e está inteirado sobre a “polêmica” criacionista certamente se perguntou: como pode o observatório de imprensa (que pretende ser sério) publicar aquele tipo de artigo? Quase um mês depois outro ensaio, desta vez criticando não só a revista como o autor do primeiro texto, foi publicado. Mas a esta altura o estrago já estava feito.

Outro exemplo recente: a Universidade Federal do Rio Grande do Sul ministrou um curso de extensão intitulado “A Prova Científica da Existência de Deus”. Não só é impossível obter “prova científica da existência de deus” (qualquer curioso que entenda um mínimo de filosofia da ciência sabe disso), como o próprio nome dado ao curso já demonstra sensacionalismo barato. O pior é que a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade Federal de Sergipe também se envolveram nisso. E o leigo que vê esse tipo de coisa escrita na internet ou em qualquer outro lugar passa a achar que existe alguma prova CIENTÍFICA da existência da divindade judaico-cristã...

A infiltração de criacionistas em universidades não é novidade. O Sr. Adauto Lourenço, freqüentemente citado como um “cientista criacionista” apesar de seu currículo obscuro, já começou a dar suas “palestras” em faculdades pelo Brasil afora – no início ele se restringia apenas aos templos. É válido lembrar que este senhor é um criacionista “terra jovem” – daqueles que defendem que o planeta tem apenas 6.000 anos e que o homem já conviveu com dinossauros, tendo estes animais perecido no dilúvio de Noé.

A Sociedade Criacionista Brasileira tem em seu site instruções para a montagem de um “centro escolar criacionista”, ou seja, uma escola de doutrinação religiosa. Essa mesma organização já apoiou a criação de um curso de PÓS-GRADUAÇÃO intitulado “estudos em criacionismo”, ministrado pela UNASP (uma faculdade adventista de São Paulo). No Rio de Janeiro o governo estadual já tentou inserir o criacionismo nos currículos escolares.

Em virtude do enorme crescimento do criacionismo e da “talibanização” religiosa no país (não apenas evangélica), será que realmente vale a pena ignorar o assunto? Arrisco especular que, neste ritmo, em breve não existirão mais liberdades individuais neste país – viveremos em uma teocracia. A liberdade de cátedra provavelmente será a primeira a ser atacada.

A pergunta-chave é: quando um câncer começa a crescer no corpo de alguém, a melhor forma de lidar com ele é ignorá-lo ou tratá-lo?

Eu prefiro a radioterapia.


* Não confundir teísmo com deísmo.

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