Thursday, June 28, 2007

Palavra de Especialista

RELATO: EXPERIÊNCIA COM UM CRIACIONISTA DENTRO DA ACADEMIA

David G. Borges

biólogo, graduando em filosofia

Como alguns leitores já sabem, sou estudante de filosofia. Faço o curso na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e ingressei no mesmo após ter me graduado em ciências biológicas em outra instituição de ensino superior. Entrei no curso não só por já estar, na época, envolvido com a “polêmica” do criacionismo, mas para aumentar meus conhecimentos – ou seja, minha principal motivação era uma busca por satisfação intelectual.

Há três semanas, um de meus professores pediu um trabalho acadêmico como forma de avaliação para o semestre. A disciplina era “Ética I”. O professor em questão, segundo o seu currículo lattes, é graduado em filosofia e em teologia, fez mestrado em teologia moral e doutorado em ciências da religião. Possui duas extensões, sendo uma em fenômenos parapsicológicos e uma em pastoral catequética. Afirma falar alemão, espanhol, italiano, francês e grego. Publicou um livro sobre ética e direitos humanos, e já participou de três bancas de comissões julgadoras. No entanto, em seu currículo não consta a publicação de nenhum artigo.

Resumindo: uma das questões, a primeira, era referente a um texto sobre criacionismo. Na verdade, um fragmento de texto – extraído do apêndice ao primeiro capítulo (item 1.8) do livro “Princípios de Antropologia”, de Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarria. Infelizmente, não consegui obter cópia do livro para ler a obra completa; no entanto, o texto se utilizava da típica argumentação com a qual já nos acostumamos. Chamava a evolução de hipótese, dizia que a mesma afirma que o homem é fruto do acaso (e algumas linhas depois afirmava contraditoriamente que a evolução segue um caminho ascendente e previsível) afirmava que os dados científicos são incertos, separava o ser humano dos demais hominídeos, falava sobre o surgimento de características biológicas em ordem completamente errônea em relação aos dados da paleontologia, da zoologia e da genética, se utilizava do falacioso termo “evolucionismo emergentista”, mencionava “inovações complexas” como o olho, fazia a velha analogia das mutações com a tentativa de se construir uma frase “sorteando” as letras que a constituem, comparava um formigueiro ao museu do Louvre, afirmava a existência da alma, a imaterialidade da inteligência, e concluía mencionando a divindade cristã, entre outras coisas.

Obviamente, escrevi meu trabalho – de onze páginas, mas quais oito eram dedicadas a este primeiro texto – refutando o criacionismo. Mencionei minha formação e minha experiência anterior com o tema, bem como dados e conceitos bastante atuais da biologia. Qual não foi minha surpresa quando recebi o trabalho, na sexta-feira da semana passada (15 de junho), com uma série de rabiscos do professor e sem indicação de nota. Quando o indaguei sobre a minha nota, ele afirmou em tom agressivo que eu não merecia uma.

Como se não fosse suficiente, ao ler com atenção as páginas do trabalho encontrei uma série de ofensas. Fui acusado de ser arrogante, desonesto, intelectualmente desonesto (uma “categoria diferente” de desonestidade), intolerante e preconceituoso, além de haverem alusões pouco delicadas à minha inteligência.

Nos manuscritos que o professor fez em meu trabalho, junto dos insultos, se encontrava uma argumentação bastante pueril em prol do criacionismo. A criação era qualificada como “hipótese”, a evolução como “não-testável empiricamente” (assim como a criação) e ambas como “não-opostas”. Tive a nítida impressão de que o professor confundia criacionismo com teísmo. Além disso, ainda afirmou que não conhecia ninguém que aceitasse a “hipótese da criação” que defendia que a mesma fosse uma ciência. Ou seja, total desconhecimento sobre o assunto.

Hoje, segunda-feira (18 de junho), entrarei com um pedido de reavaliação acadêmica do trabalho, bem como uma queixa formal contra os insultos e a exigência de uma retratação. Passei o final-de-semana inteiro redigindo os documentos, que estão acompanhados de uma refutação às anotações do professor. A queixa contra os insultos, redigida pelo meu advogado e assinada por mim, possui dezoito páginas (incluindo em anexo o meu trabalho e o trabalho de outro aluno que também foi ofendido). O pedido de reavaliação, redigido por mim (embora também tivesse sido auxiliado pelo meu advogado em alguns pontos), possui sessenta – incluindo os documentos em anexo. Ontem, domingo, não cheguei a ir me deitar. Só saí do computador para um cochilo rápido às 4:50 da manhã de hoje, retornando às 8:30.

Ainda estou considerando se devo relatar a situação à imprensa. A infiltração dos criacionistas no meio acadêmico é um assunto que está em voga, e recentemente revistas de circulação nacional como a “Veja” e a “Superinteressante” publicaram matérias sobre o tema. Os jornalistas, sempre ávidos por um “furo”, adorariam falar sobre este caso.

Quanto ao texto e ao professor, não passam de mais exemplos de como a “Wedge Strategy” e a agenda criacionista para a infiltração no meio acadêmico têm sem mostrado eficazes. Embora seja de certa forma cômico ver alguém com um título de doutorado cair em pseudo-ciência tão malfeita e primária, também é uma situação extremamente preocupante.

3 Comments:

Anonymous Renan said...

Situação lastimável...

5:42 PM  
Blogger Allysson Allan said...

Exclusividade, LinhaEvo Blogspot.

7:35 PM  
Blogger ribeiroll said...

Totalmente lastimável.

12:02 PM  

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