Tuesday, November 21, 2006

Palavra de Especialista

Olá! Hoje inauguramos uma nova coluna no Blog, que é a "palavra de Especialista", que vai trazer textos de assumidades nas áreas científicas. A colunista de hoje é Margarita Rodrigues, socióloga, e seu texto foi escrito originalmente como resposta a uma postagem de orkut.
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“DEMONIZAÇÃO DO DARWINISMO”

Margarita Rodrigues

MS, doutoranda em Sociologia

21/10/2006


O tópico em questão afirma: “TE – é um constructo social! A Teoria da Evolução nada mais é que uma construção social para sustentar o imperialismo britânico do século dezenove! Não só isso, é uma filosofia(ou melhor, uma cosmo visão) naturalista-materialista disfarçada de 'ciência objetiva'! Quem sustenta essa visão de mundo vive numa esquizofrenia moral e mental. Por quê? Porque na sala de aula ou no laboratório sustenta uma visão de mundo materialista e sem sentido, sem propósito, sem misericórdia. Na vida familiar, 'particular', sustenta outra visão de mundo. Querem sentido, objetivo, um propósito para as suas vidas, que só a cosmo visão teísta pode fornecer!”.

Minha resposta ao tópico com pequenas alterações:

Meu caro você está sendo simplista, inconsistente, leviano e principalmente reducionista e refutável nessa sua afirmativa, uma vez que não comprovou nenhuma evidência sustentável do que afirma. Quando muito, induz os menos avisados a pensar que houve um movimento deliberado nesse sentido. Nunca te ensinaram que ao emitirmos um “parecer” sobre determinados assuntos, e principalmente por escrito, devemos explicar como chegamos a tal conclusão? Parafraseado o velhinho barbudo Marx em o 18 Brumário, mas em sentido inverso, não reduza a História do Pensamento Econômico (HPE) a “um saco de batatas”. O verdadeiro cientista não vive uma “esquizofrenia”. Não emita juízo de valor sobre algo que desconhece, já que nem todo mundo e principalmente os cientistas têm uma visão maniqueísta da vida.


1) Refutação: sua afirmativa de que a Teoria da Evolução “... é uma filosofia (ou melhor, uma cosmo visão) naturalista-materialista disfarçada de 'ciência objetiva'".

Para o seu conhecimento, o período da Idade Moderna foi palco de uma explosão de novos conhecimentos, tanto científicos como tecnológicos, advindos das mais diversas áreas. O conhecimento não é obra do acaso. Ao contrário, ele é guiado pela filosofia. Se a escola Filosófica do Positivismo e sua noção de progresso, inaugurada por Saint-Simon em 1830 (e “apropriada” por Augusto Comte), influenciaram diversos pensadores em suas teorias, isso não implica dizer que houve um acordo implícito ou explícito nessa direção, ou que esses pensadores seguiram como “rebanho” atrás de uma idéia. Na “cosmo visão” desses pensadores, a humanidade passa por um processo “evolutivo”. O Positivismo tem como referência filosófica Kant e sua obra Crítica à Razão Pura, é uma palavra derivada do latim – positum, posto, situado – ou seja, significa aquilo que se observa, que se experimenta. O Positivismo nada mais é do que uma nova fase do empirismo, denominado por alguns como “conhecimento enciclopédico”. Se escolas filosóficas posteriores criticam ou refutam algumas teorias de cunho positivista empiricista, isso não anula as suas conquistas passadas nem as futuras, uma vez que várias disciplinas são ainda iminentemente positivista empiricista. Procure estudar Filosofia da Ciência e ler as Etapas do pensamento sociológico do não marxista Raymond Aron.

Os primeiros evolucionistas foram Malthus e Spencer, o primeiro com sua Teoria do Princípio de População de 1838 e o segundo em do Progresso sua Causa e Seu efeito de 1857 (ambos disponíveis na internet), os primeiros a defenderem a noção de progresso evolutivo em diversas áreas estudadas por eles. São eles que formulam as primeiras noções sobre o evolucionismo. Lembrando que nenhum dos dois era ateu. O primeiro era economista e Pastor e o segundo filósofo e sociólogo, filho de pai quacker e mãe metodista. Portanto o evolucionismo não foi “inventado pelo Naturalista Darwin”. É ciência e como tal, é objetiva e materialista e não se mistura com o subjetivismo metafísico. Darwin aparece em 1859 com a Origem das Espécies cujo título original era Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Conservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida. Darwin nunca foi ateu. Ao contrário, até pensou em ser pastor anglicano. Muito embora tenha se afastamento da igreja após a perda de uma filha, ele nunca se afirmou ateu, mas sim agnóstico.

A reação do pensamento conservador de filósofos, religiosos e “pseudos” cientistas de “demonização” de Darwin se dá porque sua Teoria vai de encontro às crenças construídas por religiosos, em cima de uma parte de um livro – a gênese da Bíblia – que não apresenta nenhuma evidência empírica. Ao contrário, é um livro escrito por “n” pessoas, que passou por “n” traduções e “n” interpretações todas elas cientificamente criticadas por lingüistas, historiadores e antropólogos, e que conta a estória de vida e de costumes do povo judaico-cristão. Na verdade um livro usado pelos religiosos como a manifestação da “voz de Deus” para assim estabelecer preceitos morais e filosóficos, com o único objetivo de dominar corações e mentes aos seus interesses materialistas (políticos e econômicos). Como exemplo atual, podemos questionar qual a relação existente entre George W. Bush (Presidente dos EUA e membro de um grupo de empresários ligados ao petróleo) e o ressurgimento do movimento da seita criacionista que entre suas orientações deixa implícito a intolerância religiosa a outras crenças e manifestações de fé, ao defender o ensino religioso cristão nas escolas públicas. Lembrando mais uma vez o velhinho barbudo Marx, guerra não se faz pela fé, e sim por interesses econômicos.

2) Refutação: A Teoria da Evolução nada mais é que uma construção social para sustentar o imperialismo britânico do século dezenove.

Até no feudalismo as relações sociais eram baseadas e organizadas nos princípios de reciprocidade, redistribuição ou domesticidade comunais, tendo o artesanato como forma de produção. Com o advento da Revolução Industrial iniciada no século XVIII - a mecanização das formas de produção - iniciam-se não só a transição entre feudalismo e capitalismo, como também o processo de transformação das relações sociais que passam a ser embasadas pela economia de mercado, tendo como princípio norteador o lucro. Ou seja, as relações sociais passam a ser definidas não mais em funções da familiaridade e sim em função das relações econômicas. Como afirma a teoria clássica econômica, o trabalho passa a ser apenas um negócio e a economia passa a ser regulada pela “mão invisível” do mercado como afirmou Adam Smith e desejavam os liberais. Ao estudar as Leis ingleses - privatização das terras, Lei dos Pobres de 1834, Lei da Reforma de 1831, Lei do Trigo de 1846 - Karl Polanyi, no clássico A Grande Transformação escrito em 1944, demonstrou que o objetivo do Estado inglês ao criar esses leis foi submeter a sociedade inglesa às exigências de empreendedores que se orientavam apenas pelo lucro. Com a população submetida às leis do mercado, inaugura-se uma nova formação social denominada de capitalismo. Nas palavras do autor, o homem foi reduzido a “átomos dispensáveis” de uma “máquina para o qual estava condenado a servir”. Esse autor comparou a liberação do mercado desregulado a um “Moinho Satânico”, com força capaz de destruir as relações sociais. A partir desse momento as transações comerciais passam a ser transações monetárias. Esquecida por algum tempo sua teoria do “Duplo Movimento” na história do capitalismo vem sendo amplamente estudada na atualidade, mas até o momento não foi ainda refutada. Ao contrário, se encontra em plena expansão uma vez que está dando origem a novos conhecimentos sobre a nossa formação social. Diante disso fica óbvio que a Economia de Mercado foi a mola mestra e propulsora do imperialismo britânico do século XIIX e não a TE e muito menos Darwin tem alguma coisa a ver com isso. Não confunda alhos com bugalhos.


6 Comments:

Anonymous Nélio Bessant said...

Para um leigo curioso - daqueles que conhecem mal e porcamente a Teoria de Sarwin - como eu, foi um imenso prazer ter podido ler o artigo da doutoranda Margarita Ridrigues. Tenaz e incisiva ao defender seu ponto de vista, não perde a elegância ao expor seus arguementos irrefutáveis, uma vez que são baseados em seu vasto conhecimento da matéria. Foi, para mim, como estar nos bancos acadêmicos, tendo a chance de aprender um mínimo que fosse, a respeito de tão apaixonante tema - TE. Meus respeitos, cumprimentos e agradecimentos a futura Doutora Margarita Rodrigues, por ter repartido conosco, um tiquinho do seu vasto saber. Parabéns !

12:21 PM  
Anonymous Nélio Bessant said...

Como péssimo digitador que sou, cometi erros imperdoáveis que me apresso em corrigir:
Darwin e não Sarwin - lógico
Rodrigues no lugar de Ridrigues
argumentos e não arguementos.

Prometo que em próximas postagens serei mais cuidadoso.

Por enquanto, apenas lamento e choro pelos erros. Mil perdões !

12:31 PM  
Anonymous Juliana said...

Oi Renan...

Fantástica sua iniciativa!
Saudade da Margarita!! :o)

Aproveito pra deixar uma dica: "Tome Ciência”, nesta quinta-feira: Faço o que meu gene manda? (programa da SESCTV). Vale a pena conferir!

beijos

1:23 PM  
Anonymous Francisco Quiumento said...

UAU!

Precisa mais?

4:17 PM  
Anonymous Ravick said...

Mas ah!

Margarita nos dá mais uma demonstração de seu vasto conhecimento!

Adorei! Parabéns!

7:00 PM  
Anonymous Anonymous said...

Amiable post and this fill someone in on helped me alot in my college assignement. Thank you on your information.

5:38 PM  

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