Sunday, November 19, 2006

O humanismo de Darwin, Marcelo Gleiser

Ensaio do Marcelo Gleiser, para o Folha de hoje, domingo, 19/11.
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O projeto darwiniano é explicar a vida a partir padrões fundamentais


Para muitas pessoas, especialmente as mais religiosas, as idéias de Charles Darwin, o naturalista inglês que no século 19 propôs a teoria da evolução pela seleção natural, são um ultraje: afirmar que nós, homens e mulheres, sofisticados e conscientes, somos nada mais do que macacos evoluídos é inaceitável.

Especialmente ao contrastarmos esta visão "vil" da humanidade com a da Bíblia, que nos coloca tão perto de Deus, criados por Ele à sua imagem e semelhança. De semideuses a macacos é um pulo enorme. Darwin conseguiu, em apenas uma geração, virar ao avesso milhares de anos de crenças.

Como não podia deixar de ser, as idéias de Darwin criaram imensa controvérsia. Ele mesmo preferiu evitar a exposição e as disputas públicas, deixando que outros o defendessem, como é o caso de T. H. Huxley, o biólogo que tornou-se "buldogue" de Darwin.

Em ensaio recente para a revista "The New Yorker", Adam Gopnik refaz a trajetória literária de Darwin, mostrando que mais do que um naturalista, Darwin era um romancista da ciência: seu modo de escrever ia além da simples exposição de fatos e conclusões. Existia uma estratégia literária, com o objetivo de tornar o relato tão natural que a conclusão final fosse absolutamente óbvia e inevitável, quase desnecessária. Darwin sabia muito bem que suas idéias encontrariam resistência acirrada.

Na "Origem das Espécies", por exemplo, Darwin passa grande parte do livro discursando sobre as técnicas dos criadores de pombos, cachorros e outros animais domésticos, mostrando como a reprodução controlada fixa características desejadas na prole, um fato mundano ao qual ninguém pode se opor. Darwin então mostra que, mesmo se não forçadas pelos criadores, mudanças ocorrem por si mesmas a partir da variação natural entre os indivíduos de uma dada população; o ambiente faria o papel da mão humana, selecionando certos traços.

Para ele, a incrível variação da vida é conseqüência essencialmente de dois fatores: intervalos de tempo geológicos, muito além dos que contemplamos nos 70 ou 80 anos que vivemos, e mudanças que podem ser passadas de geração em geração. Darwin não conhecia as mutações genéticas, mas sua teoria antevê o mecanismo básico das transformações entre animais responsável pela diversidade da vida.

O projeto darwiniano é explicar a imensa variedade da vida a partir de apenas alguns padrões fundamentais. É essa a função de qualquer teoria científica, seja ela em física, química ou biologia: descrever o maior número de fenômenos ou observações do mundo natural a partir do menor número de princípios sem qualquer intervenção de entidades sobrenaturais. Todas as respostas para os mistérios da natureza, da origem das espécies à formação do Sol e dos planetas, podem ser encontradas na própria natureza. O estilo de Darwin é o da insistência, a famosa frase latina "guta cavat lapidem" (água mole em pedra dura), exaustivamente anestesiando qualquer possibilidade de resistência por parte do leitor.

Em obras posteriores, Darwin argumenta que os homens são macacos evoluídos: "Aprendemos então que o homem descende de um quadrúpede peludo, dotado de orelhas pontudas e rabo, provavelmente arborícola, que habitava o Velho Mundo". Essa afirmação, claro, aparece só depois de centenas de páginas de exemplos comparando nosso comportamento sexual ao de animais. Em seus escritos, Darwin mostra que o homem não é mais apenas a medida de todas as coisas; todas as coisas podem ser medidas por ele. É essa dimensão humana que damos ao mundo que define a essência do humanismo.

1 Comments:

Anonymous Margarita said...

Excelente o texto do Marcelo!
Principalmente porque ele resgata uma qualidade de Darwin, que anda sendo esquecida pelos nossos cientístas. A preocupação em tornar o texto intelígevel para os leigos e curiosos.

9:04 PM  

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